segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Um simples devaneio

Por vezes Noriak se perde em seus pensamentos, suas dúvidas se confrontam com as certezas, seu ódio tenta sobrepujar a razão, sua mente outrora sábia e lúcida agora se perde em conflitos surreais, é como se estivesse sonhando enquanto caminha pelo mundo.

Perdido em um devaneio ele se imagina sobre um imenso gramado, o vento sopra de maneira leve e ele sente a brisa macia em sua pele, a grama verde que se espalha até onde seus olhos podem enxergar massageiam seus pés descalços, o sol suspenso na vastidão azulada banha seu rosto de maneira amena.

Então uma voz suave chama seu nome, rapidamente olhando para trás, enxerga uma árvore enorme que faz no chão uma sombra de mesma proporção, ali protegida ele vê uma figura feminina confortavelmente sentada sobre um pano coberto por farto banquete.

-Onde vai? - pergunta a mulher - por acaso está tentando fugir de mim seu bobinho?

Ela age como se o conhecesse, com voz doce e suave ela se dirige com extrema intimidade, mas por mais que tente, Noriak não consegue reconhecer aquela figura.

-Venha, vamos conversar - convida a mulher - não me deixe aqui sozinha, odeio a solidão deste lugar, vamos, quero saber como você se sente, quero que me conte seus problemas, não guarde tudo isso para você, sabe que pode confiar em mim.

Ao chegar bem próximo ele tem a certeza de não a conhecer, porém um arrepio lhe percorre o corpo no momento em que seus olhos contemplam a beleza estampada naquela jovem.

Seria isso tudo o truque de um feiticeiro ardiloso?

- O que aconteceu meu amado?  - pergunta ela - venha, sente ao meu lado, me abrace e fale sobre você.

A mão macia toca o braço de Noriak e com um movimento fraco ela reforça o convite.

Com receio ele senta ao lado da mulher e com o canto de seus olhos desconfiados percebe uma feição de surpresa no rosto dela.

-Você não muda mesmo - diz ela expressando um sorriso cativante - eu quero que você se encoste em mim, me abrace.

Ele continua imóvel perdido em uma enxurrada de dúvidas, percebendo a desconfiança e o medo a mulher toma a iniciativa e o abraça envolvendo delicadamente seu corpo nos braços de Noriak.

-Viu? Foi difícil? - pergunta a jovem.

- Sabia que você é muito desconfiado? Mas eu não lhe culpo, o mundo dos homens não é um lugar de paz e eu entendo o mundo que o moldou.

- E é por causa disso que estou aqui hoje, tenho admiração por você e gostaria de lhe mostrar um mundo sem espadas, sem sangue e violência. Um mundo moldado por amor, respeito e solidariedade.

-Mas primeiro você precisa se abrir, precisa me contar o que existe dentro de sua conturbada consciência, só assim poderei lhe ajudar.

Agora ela o aperta ternamente acariciando o seu rosto.

Ela o encara e ele não consegue enxergar mentiras naqueles lindos olhos, apenas um olhar de suplica, quase como se aquele olhar pudesse dizer “por favor, deixe-me ajudá-lo”.

Hesitante ele abre a boca, tenta falar algo, mas as palavras não saem, gagueja algumas sílabas, mas logo mantém o costumeiro silêncio que impera por alguns minutos.

Até que Noriak sente certo desconforto.

A mulher começa a chorar e se ergue.

- É com imensa tristeza que percebo a duvida que arde em seus olhos - diz a mulher com a voz abatida - você não tem interesse no que lhe ofereço?

A jovem corre desesperadamente, Noriak não consegue mais se mexer a suave brisa se transforma em um vendaval o céu outrora claro agora é coberto por nuvens escuras que cospem raios ferozes, um destes atinge a arvore ali perto que queima como papel, o fogo se alastra rapidamente até seus pés e uma risada áspera rasga os céus.

-Amor? - indaga a voz carregada de ódio.

-Você é patético! Amor é para os fracos e não para aqueles cujo batismo fora feito com sangue inimigo.

-Preciso lembrá-lo de que toda a sua existência fora moldada pelo ódio, aço e sangue?

-Como ousa imaginar que, em seu caráter existe lugar para tais sentimentos?

-Você já provou desta mistura amarga, sabe muito bem que a compaixão irá destruí-lo.

-Ou por acaso já esqueceu do que lhe aconteceu?

-A humanidade mais uma vez irá pisar em você sem qualquer remorso.

-A solidão não é um castigo, seu ódio é um dom, o desprezo pelos humanos é a vacina que lhe protege contra a fraqueza dessa raça perdida.

-Tentar mudar isso o levará a sua eminente ruína.

A árvore gigante não resiste ao fogo e cede caindo na direção de Noriak que instintivamente se joga ao chão tentando escapar da morte certa.

Só então ele desperta de seu torpor, percebe que está atirado ao chão de uma pequena vila, os habitantes que por ali passam o encaram com olhos arregalados e feições de completa desaprovação.

Noriak se ergue carrancudo, bate o pó de suas roupas e caminha a procura de uma sombra onde tentará pôr a cabeça novamente nos eixos.